sexta-feira, outubro 23, 2009

A face subversiva da capoeira
Novembro 18, 2007 in Cidadania, Cidade, Cultura, Educação, Esporte, Fotografia, Identidade Negra, Leitura Imediata, Política, by Albenísio Fonseca | by falandonalata | 4 comments

Mestre Bimba, com Getúlio Vargas, em 1932. O estado reconhece a capoeira como esporte “genuinamente” brasileiro


A face subversiva da capoeira
Albenísio Fonseca


Abre a roda. Da história. Deixa o berimbau ecoar. Ícone por excelência da baianidade, a capoeira é o tema do Carnaval 2008, em Salvador. Ritual , dança, luta, malabarismo desenvolvido pelos negros africanos escravizados no Brasil, a capoeira revela, nas gingas do seu microcosmo, formas de resistência aos opressores, transmissão da cultura, melhora da moral subjugada, e distingui-se de outras lutas marciais pela presença da música a dar ritmo aos movimentos.

O TERMO “CAPOEIRA” É ATRIBUÍDO À VEGETAÇÃO RASTEIRA QUE CIRCUNDAVA ENGENHOS DE AÇÚCAR – HABITAT PRIMORDIAL DO TRABALHO ESCRAVO. SEU LUGAR NA HISTÓRIA É REGISTRADO DESDE OS SÉCULOS XVIII E XIX. NO RIO, RECIFE E SALVADOR. MAS EXISTE UMA FACE SUBVERSIVA DA CAPOEIRA, A PROIBIDA E DURAMENTE REPRIMIDA.



INÍCIO DO SÉCULO XIX. RIO DE JANEIRO. CAPITAL DO IMPÉRIO. “MALTAS DE CAPOEIRAS” SÃO ACUSADAS DE PROVOCAR INQUIETAÇÃO E PAVOR NA ELITE CARIOCA. SÃO CONSTANTES EPISÓDIOS DE CONFRONTOS COM A POLÍCIA. MESMO SEM SER CONSIDERADA CRIME, PESAVA SOBRE A PRÁTICA DOS CAPOEIRAS A ACUSAÇÃO DE PERTURBAÇÃO DA ORDEM PÚBLICA E PORTE DE ARMAS.



OS PEDIDOS DE CRIMINALIZAÇÃO SURGEM A PARTIR DE 1870. A “CIVILIZAÇÃO” ELABORA A NECESSIDADE DE EXTIRPAR A “BARBÁRIE”, ISTO É, A CAPOEIRAGEM. MAS SERIA COM A REPÚBLICA, ATRAVÉS DO CÓDIGO PENAL DE 1890, QUE ELA É PROIBIDA. O CAPÍTULO 402 DO NOVO CÓDIGO, “DOS VADIOS E CAPOEIRAS”, JÁ EXPLICITAVA O ALVO DA PENA.



SOB A MONARQUIA, MUITOS FORAM PRESOS E DEPORTADOS PARA FERNANDO DE NORONHA OU MATO GROSSO. OUTROS, RECRUTADOS PARA O SERVIÇO MILITAR E LANÇADOS AO GENOCÍDIO DA GUERRA DO PARAGUAI (1865-70). A REPRESSÃO, CONTUDO, TENDIA A ANIMAR A INDISCIPLINA FUNDAMENTAL DO GUERREIRO, O QUESTIONAMENTO DA HIERARQUIA, A INSURGÊNCIA CONTRA O PODER.



CAPAZ DE SUPORTAR A PRESSÃO DA VIOLÊNCIA DO ESTADO DURANTE DÉCADAS, A CAPOEIRA SOBREVIVERIA AO PESADO INVESTIMENTO EM DISPOSITIVOS PARA ANIQUILAR SUA PRÁTICA, DURANTE O SÉCULO XIX. CONTAVA COM ALIADOS SUBTERRÂNEOS, APOIOS OCULTOS, COMO AS CASAS DE ZUNGUS - EMPREENDIDAS POR AFRICANOS LIBERTOS, E QUE DESESTABILIZAVAM AS RELAÇÕES DE DOMINAÇÃO DURANTE A ESCRAVIDÃO – LUGARES DE ACOLHIDA E PASSAGEM, PONTOS DE FUGA PARA QUILOMBOS RURAIS.




A TRÉGUA ENTRE OS CAPOEIRAS E O ESTADO VIRIA NA DÉCADA DE 1930, COM SUA INSTITUCIONALIZAÇÃO COMO ESPORTE NACIONAL NO GOVERNO GETÚLIO VARGAS. EM 1932, OS CAPOEIRAS COMEÇAM A TORNAREM-SE CAPOEIRISTAS. MESTRE BIMBA FUNDA A PRIMEIRA ACADEMIA DE CAPOEIRA, EM SALVADOR. ACRESCENTA MOVIMENTOS DE ARTES MARCIAIS, CRIA A CAPOEIRA REGIONAL. MESTRE PASTINHA, EM CONTRAPONTO, PREGA A TRADIÇÃO DA CAPOEIRA COMO JOGO MATREIRO, DE DISFARCE E LUDIBRIAÇÃO, ESTILO QUE DENOMINARIA ANGOLA. A CAPOEIRA DEIXAVA DE SER MARGINALIZADA, SE ESPALHA DA BAHIA PARA TODOS OS ESTADOS BRASILEIROS, E HOJE, PRATICADA EM 100 PAÍSES, DÁ A VOLTA AO MUNDO. EM 2008, SALVADOR ABRIGARÁ UMA BIENAL DA CAPOEIRA E A ARTE SERÁ TOMBADA COMO PATRIMÔNIO CULTURAL BRASILEIRO. ABRE A RODA. DEIXA O BERIMBAU ECOAR.

(Artigo publicado originalmente em A Tarde – Opinião, Pág. 2 – 17.11.2007)


Mestre Pastinha e a capoeira Angola, o contraponto


Mestre João Pequeno, 90 anos em dezembro



Edital, Bienal e Tombamento

O Ministério da Cultura (Minc) lançou, dia 10 de outubro, em Salvador, o novo edital do programa Capoeira Viva, que distribuirá um total de R$1,2 milhão a projetos de todo o Brasil que tenham como vértice a mistura de luta, dança e rito trazida ao Brasil pelos negros escravos, no final do século XVIII.

Realizada no Palácio Rio Branco, a solenidade homenageou o mestre capoeirista mais antigo ainda vivo, João Pequeno. Ele completa 90 anos em 27 dezembro. O ministro interino Juca Ferreira anunciou ainda que Salvador sediará, em 2008, a Bienal Mundial da Capoeira, que se converterá, também, em palco da festa de tombamento da arte como patrimônio cultural brasileiro.

O Minc premiará projetos ligados à Capoeira em quatro linhas: ações sócio-educativas de mestres capoeiristas com foco na recuperação da auto-estima, que podem receber de R$8 mil a R$18 mil cada um; projetos inéditos de pesquisa e documentação sobre o desenvolvimento da capoeira no Brasil e exterior, no valor máximo de R$20 mil; apoio a acervos documentais, cujo aporte chegará até R$50 mil; projetos de utilização de mídias e suportes digitais, eletrônicos e audiovisuais, que podem receber até R$30 mil.

Segundo o presidente da Fundação Gregório Matos, Paulo Costa Lima, “este projeto faz parte do intento do Minc em transformar a capoeira como instrumento de políticas públicas”. O órgão coordenará o processo do edital. As inscrições estão abertas até 17 de dezembro. O resultado da seleção sai em fevereiro. O valor destinado nesta edição é 29% superior ao anterior, quando foram premiados 74 projetos.

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